Coleção: As Eras - Eric Hobsbawm


Esta talvez seja uma das principais coletâneas de história para divulgação científica. O Eric Hobsbawm foi um dos historiadores mais populares e influentes da contemporaneidade, o cara é bom. A divisão temporal que ele propôs em Eras é usada na acadêmia histórica, é raro um autor ser popular fora da academia e ter seus livros referenciados em artigos, o Hobsbawm é um desses.

O box ao lado contêm três dos quatro livros que compõe a coletânea das Eras, faltando apenas a Era dos Extremos, o último que ele publicou. As obras são fechadas em si, não é necessário ler na ordem e muitas pessoas pegam apenas o livro do período que mais lhes interessa. Você pode ler apenas um deles e terá um livro excelente, ou pegar a coleção e fazer um acompanhamento cronológico do desenvolvimento do sistema capitalista. Obviamente eu recomendo a coleção toda, os livros são fáceis de ler, cheios de referências e, na moral, divertidos, mais abaixo vou falar de cada um dos livros e colocar o link dos exemplares separados, caso você prefira.

Se você ler toda a coleção eu te garanto que já terá uma compreensão histórica muito acima da média, eu super recomendo essa coleção pra quem está interessado em se aprofundar em história contemporânea.


A Era das Revoluções- Eric Hobsbawm


Primeira obra da coleção, aqui o Hobsbawm vai analisar a formação das estruturas políticas, econômicas e sociais que abriram espaço para a ascensão do capitalismo na Europa. O livro circula a Revolução Francesa, seus ideias, suas causas e desdobramentos, é o nascimento do capitalismo.


A Era do Capital- Eric Hobsbawm


A turbulenta Era das Revoluções é sucedida por um período de relativa estabilidade política e de expansão de um novo sistema produtivo industrial. Esse livro se foca na produção da cultura burguesa, do estabelecimento dessa classe como elite além da esfera econômica, a dominação também da cultura, da política e, até mesmo, da fé.


A Era dos Impérios - Eric Hobsbawm


Esse livro aborda a expansão dos impérios europeus em torno do mundo, sendo um período de paz entre as nações europeias e de enorme prosperidade econômica para os impérios, às custas de desastres políticos, econômicos e sociais para as nações dominadas. Essa paz porém, foi uma paz tensa e levará ao ponto culminante da explosão da Primeira Guerra Mundial.


A Era dos Extremos - Eric Hobsbawm


O livro mais famoso da coleção, os assuntos que trata são muito atuais e podemos ver seus desdobramentos com mais clareza, afinal vai até 1991. Aborda as duas guerras mundiais, a guerra fria, a ascensão do facismo, a revolução russa, bombas atômicas e outros tantos acontecimentos que moldaram bruscamente o mundo.


Esse livro não está na coletânea, sendo separado se seus antecessores. Como é o mais atual, se você fosse pegar apenas um da coleção eu recomendaria este aqui. Mas já adianto que esse livro é tão bom que, ao terminá-lo, você vai querer pegar os outros. Livro essencial para qualquer um que queria aprender história.


Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão - Michel Foucault

Foucault foi um dos mais importantes filósofos do século XX, e essa obra é a prova disso. Este livro alterou a percepção hegemônica de punição e fiscalização, a ponto de ser discutida em cursos de pedagogia, administração, ciência política e qualquer outro que lide com algum tipo de relação social. É uma obra fundamental para se discutir sociedade.

O nome assusta, mas esse livro mudou minha forma de lidar com meus alunos, uma vez que se entende melhor os mecanismos de vigilância nos quais estamos inseridos - e dos quais participamos - podemos moldar nossa ação de forma a ter resultados melhores.

Certas obras são fundamentais de forma transversal, sendo importante para qualquer um que lide com ciências humanas e sociais, sem importar a área de especialização, essa é uma delas. Não há um curso sério que não vá abordar este livro, ele é fundamental para o pensamento contemporâneo.


Decifrando a Terra - W.Teixeira, M. Toledo, T.Fairchild, F. Taioli


Eu tenho uma relação ambígua com a geologia. Sou muito mais envolvido - e interessado - em aspectos sociais, políticos e econômicos, mas mais de uma vez me surgiu a necessidade de consultar um geólogo para lidar com uma questão que se apresentou em minha carreira. Quando decidi que precisava de uma noção básica de geologia para melhorar uma compreensão de ciências humanas e sociais, fui aos meus colegas geólogos e TODOS, sem nenhuma exceção, me sugeriram este livro.

É um livro introdutório, tão bem organizado que me lembra uma apostila de Ensino Médio, passa por diversos temas e com um índice que me faz voltar aqui sempre que surge uma necessidade nova relacionado a geologia.

De verdade, entender geologia é muito importante para se aprofundar em ciências sociais e humanas e este livro é a melhor introdução à geologia no mercado brasileiro, não tem erro, super recomendo.


somente

O Príncipe - Nicolau Maquiavel

Clássico. Tão clássico a ponto de ter referência na cultura pop e em novelas brasileiras. "Os fins justificam os meios" a famosa frase que não está nesse livro e nem foi dita pelo Maquiavel. Surpreso xuxu?

Pois é... É uma confusão comum atribuir esse ditado ao Maquiavel, mas, na verdade, deriva de uma percepção equivocada da obra, uma simplificação que ficou mais famosa que a obra em si.

Esse livro é um guia de recomendações que o Maquiavel - muito educadamente - daria a um suposto "príncipe" para melhor governar, é uma série de conselhos e reflexões que Maquiavel faz sobre o estado, o que é ser governante e como o fazer da melhor forma.

O livro é curto e o Maquiavel se estende descrevendo principados e outras localidades da época que, honestamente, vale a pena pular esses trechos. Tirando essas partes, é um livro fácil de ler e essencial para o repertório de ciências sociais.

O Segundo Sexo - Simone de Beauvoir

Livro que lançou Simone de Beauvoir como referência mundial. Não apenas o livro é sensacional, mas é um marco histórico, um registro das lutas dos movimentos feministas e um marco de sua segunda onda. O livro coloca a percepção -e construção- dos papéis de gênero em cheque.

Isso tudo nos anos cinquenta! (1949, mas marcou a década seguinte). Um contexto conservador, ideológico (guerra fria) e temos um marco como essa obra, atacando uma das estruturas mais abrangentes e consolidadas de desigualdade e exploração. Questões relacionadas a gêneros são uma constante da humanidade, para qualquer época ou local esse livro é relevante para seus estudos.

Livro impressionante em vários sentidos, em conteúdo, contexto, importância histórica, escrita, fundamental para quem deseja compreender ciências sociais e humanas.


somente

Pedagogia do Oprimido - Paulo Freire

Pensa num cara injustiçado pelo negacionismo científico. É muito comum uma ala ideológica maluca -e anticiência- pintar o Paulo Freire como o problema da educação brasileira. Cara, que absurdo. A cerne do argumento do Freire é trazer o conteúdo para mais próximo da realidade do aluno, facilitando não apenas a compreensão mas demonstrando os usos daquele conhecimento para a vida da pessoa.

Conteúdo próximo da realidade do aluno? Usos do que aprende no dia-a-dia? Conscientização do aluno quanto a realidade que vive? Paulo Freire, Paulo Freire, Paulo Freire. O cara é o cientista brasileiro mais importante da história, é o mais citado até hoje, as melhores faculdades de educação do mundo estudam esse mano, o legado dele é imenso.

Na "Pedagogia do Oprimido" o Freire coloca em xeque a relação entre aluno e instituição escolar quando a situação é de vulnerabilidade, como a própria escola e o conhecimento podem ser opressor quando não são pensadas para o aluno, especialmente quando ninguém pensa nesse aluno. Ninguém deveria se tornar professor sem ler esse livro.

Confrontos na Sala de Aula - Julio Groppa Aquino

Mantendo a temática em educação, temos aqui um livro de um professor meu. O Julio me deu uma matéria na educação que foi a matéria que mais impactou minha formação como professor, eu não consigo descrever como a aula dele é inacreditável -e pouco ortodoxa- eu já tava no final da graduação, trabalhando como professor há alguns anos, cansado, de saco cheio, e ele virou todo meu conhecimento de pedagogia de cabeça pra baixo.

Esse livro trata da percepção do dia a dia da escola, passando pela relação entre professor e aluno, as expectativas do comportamento que entre os membros da comunidade escolar. As exigências e as resistências que cada membro desse mundo sente sobre si e aplica sobre os outros. Um estudo sobre psicologia escolar e a instituição em si.

somente

1964: História do Regime Militar Brasileiro - Marcos Napolitano

Eu já recomendei um livro do Napolitano na sessão de introdutórios, só não coloquei este também pois não o classificaria como uma introdução. O cara foi meu professor na história e é especialista em Brasil, um dos poucos professores que tive com uma preocupação genuína em divulgação a ponto de ter projetos voltados para fora da academia científica.

Esse livro é uma obra concisa e atualizada sobre a Ditadura civil-militar de 64, com as descobertas mais recentes a respeito do período, quebrando mitos e narrativas equivocadas, o livro foi feito pensando em responder muito do senso comum que se divulga sobre a ditadura.

Direto, gostoso de ler e esclarecedor.


Vida Pública e Identidade Nacional- Adrian Gurza Lavalle

Continuando a linha de livros dos meus professores, esse aqui tem um espaço especial no meu coração. Por muito tempo eu montei minha formação para ir para a ciência política e, em boa parte, por causa desse professor aqui. O Adrian foi uma referência muito importante em minha graduação e, além disso, é um pesquisador e escritor extremamente competente.

Eu estou evitando selecionar livros muito acadêmicos para a lojinha, portanto escolhi este pois é um livro de teoria política curto, inovador e fácil de ler. Leitura de bolso sabe? São raros os livros contemporâneos de ciência política nesse formato e este é uma excelente porta de entrada para a teoria contemporânea.

O livro trata da da diferença entre o espaço público e privado no Brasil e, especialmente, na dificuldade de se construir um espaço público no páis. Essa análise passe por aspectos históricos, educacionais, psicológicos e, essencialmente, políticos da percepção do ser brasileiro e do pertencer ao Brasil. Sério, vale muito ler.

somente

Morte e Vida Severina - João Cabral de Melo Neto

Este é um dos meus livros favoritos de literatura brasileira. Eu o coloco aqui pois considero uma leitura essencial para compreender o Brasil profundo. Quando dou aula de pobreza este livro está sempre presente, suas passagens são muito profundas e abrem muito espaço para debate.

Claro, não é um livro de teoria, mas é uma leitura tão sensível do Brasil que não pude deixar fora das sugestões. O livro conta a trajetória de um retirante sertanejo, saindo do sertão até a capital, contando seus motivos, sua história, seu trajeto. Cara, é muito forte.

Corações Sujos - Fernando Morais

Nos anos 40, aqui no Brasil, motivados por defender a honra da bandeira japonesa, sete migrantes japoneses, moradores da cidade de Tupã-SP, foram buscar um policial na delegacia para assassiná-lo. Eles foram presos, mas esse evento gerou desdobramentos importantíssimos. Os Sete Samurais de Tupã -como o grupo ficou apelidado- inspiraram a fundação da Shindo Renmei, uma organização que passou a divulgar que o Japão saiu vitorioso na segunda guerra mundial e que a mídia mentia sobre o contexto global. Esse grupo passou a considerar que os japoneses que acreditassem na derrota japonesa eram traidores e deveriam ser assassinados, o que gerou uma onda de violência dentro do Brasil.

O Livro é uma obra de um jornalista que levantou os dados desses acontecimentos, é muito bem escrito e, honestamente, a história é tão incrível que nem parece real. Quer uma parada pra contar no bar e deixar todo mundo interessado? Tá aqui. Nunca falha.

somente

Jamais Fomos Modernos - Bruno Latour

Na faculdade de Ciências Sociais nós temos uma divisão em três frentes: Sociologia, Ciência Política e Antropologia. Durante a graduação eu sempre fui mais pra Ciência Política - e hoje sou mais sociologia - mas eu lembro quando que eu realmente comecei a levar a sério a antropologia e foi com esse livro aqui.

A idéia do livro é simples: o conceito de modernidade foi inventado por nós para nos referirmos ao momento e as práticas de conhecimento que vivíamos, mas na verdade é um equívoco e isso nunca aconteceu, jamais nos tornamos modernos, nos referimos a nós mesmos como algo que nunca fomos.

Esse livro abriu minha cabeça pra possibilidades que me eram impensáveis, quem disse que somos o que dizemos ser? Nós mesmos! E se a nossa forma de classificar estiver equivocada? Na moral? O que é ser alguma coisa? Qual é o limite entre o ser e o não ser?

Ok, talvez a idéia do livro não seja tão simples assim... Na moral que é um livro de dar um nó na cabeça. Moh dahora.

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